Onde começam meus problemas? A ilusão de que funcionários são a fonte de tudo

Há 21 meses eu venho acompanhando micro e pequenas empresas (MPEs) em um programa que objetiva o desenvolvimento de uma cultura de inovação e percebo que o mesmo discurso se repete: “meus funcionários não se envolvem”, “não consigo fazer nada de diferente porque meus funcionários não correspondem”, “não posso delegar nada porque meus funcionários não sabem fazer”, “não posso contar com meus funcionários” e outras coisas mais. Esse discurso vicioso me faz refletir diariamente se o problema está realmente nos funcionários ou se está nas práticas comuns de gestão de pessoas das MPEs.

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Se você é um pequeno empresário, sugiro a você uma auto avaliação antes de reproduzir as reclamações exemplificadas acima:

  • Você conhece os processos da sua empresa e sabe as competências necessárias à execução de cada uma das atividades? Isso facilita a definição de um perfil mais assertivo a ser buscado no mercado.
  • Onde você busca os profissionais e como os seleciona? Será que aquela única, boa e velha indicação é realmente a melhor saída? É preciso recrutar de maneira diferente para esperar perfis diferentes.
  • Antes de contratar, você avalia apenas o que está escrito na carteira de trabalho ou você faz uma avaliação psicológica, comportamental e técnica do candidato de acordo com as necessidades da vaga? Cuidado pra não selecionar aquela pessoa que representará apenas um vale-transporte mais barato!

Essas são perguntas que sugerem reflexões a respeito do grande processo de agregar as pessoas à sua organização, momento que percebo ser deixado de lado pelos empresários das micro e pequenas empresas. Por mais que os recursos das MPEs sejam mais limitados que os dos grandes players do mercado, vejo possibilidades de refinamento e formalização dessas atividades sem grandes custos. Algumas boas práticas são: formalização das descrições de cargos; levantamento de competências necessárias ao cargo; elaboração de roteiro de entrevistas, baseando nas competências levantadas; realização de mais de uma entrevista, envolvendo outros da atual equipe da casa; e contratação de uma empresa especializada em recrutar e selecionar pessoas.

Recrutar e selecionar as pessoas mais adequadas é o início de tudo! É claro que temos outros diferentes macroprocessos a serem atentados após a entrada do funcionário, mas são assuntos para posts futuros. Hoje, atente-se ao que você está fazendo para trazer a melhor equipe para sua empresa e reflita onde está realmente a fonte dos seus problemas, se é que existe uma fonte apenas.

Até breve!

QUEM É A MARIANA?

Psicóloga que resolveu se aventurar no mundo da inovação e empreendedorismo, e acabou entendendo que a Psicologia tem muito mais conexões que muitos imaginam.

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Empreendedorismo, pessoas e lugares: mais importante do que você pensa

Você já ouviu ou leu algo sobre capital social? Não aquele capital social da esfera do investimento inicial bruto para abertura de uma empresa, mas sim o da esfera sociológica, conceito este que é bem diferente e que gostaria de tratar aqui. Há pouco eu li um texto chamado “Capital social e empreendedorismo local”, das autoras Sarita Abigail e Maria Lúcia Maciel, e é nele que eu me baseio para levantar uma reflexão.

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Ao mesmo tempo, atuar no Programa Agentes Locais de Inovação confere a nós deste blog um poder de atuação in loco nas pequenas empresas, conduzindo a implementação do ciclo de inovação. Espera-se que seja desenvolvida uma ambiência inovadora, a qual caracteriza um ambiente propício à emergência de inovações. E é aí que eu me pergunto: esse ambiente propício é apenas interno e as inovações emergem de uma cultura organizacional singular? O quanto esse ambiente irá perdurar após a saída do ALI?

Vamos então começar a levantar as reflexões.

O CAPITAL HUMANO

As autoras do texto mostram que, até recentemente, predominou na sociedade e no campo das políticas de desenvolvimento do empreendedorismo, uma visão isolada e comportamental sobre o empreendedor. Este seria um indivíduo dotado de racionalidade econômica e individual, marcada por características pessoais que o levam a criar e recriar a empresa num processo contínuo para que o negócio permaneça no mercado. Sob essa ótica, estimular o empreendedorismo significaria desenvolver o indivíduo ou a empresa apenas. Pode-se pensar o conceito de capital humano atrelado a essa visão; aquele capital que pertence à pessoa ou à empresa.

O CAPITAL SOCIAL

Quando falamos de capital social, entretanto, vamos além. O valor do capital humano existiria associado a relações sociais mais amplas. Aqui a inovação não está concentrada nos recursos humanos, econômicos e tecnológicos apenas; ela está vinculada a motivações e influências da estrutura social ao redor, as quais estão ligadas ao grau de empreendedorismo de uma localidade. O indivíduo está imerso em relações e redes que podem ou não ser propícias ao desenvolvimento do empreendedorismo. O conceito capital social não é fechado – alguns acreditam ser um ativo, outros acreditam ser uma metáfora; alguns acreditam que ele pode ser construído com propósitos, outros acreditam que é um subproduto não intencional de outras atividades. Talvez o termo seja, como as autoras mostram, um guarda-chuva dentro do qual cabem diferentes disciplinas. O fato é que a discussão sobre ele traz a importância de um conjunto de redes, normas, confiança e cooperação para que o empreendedorismo sobreviva de modo sustentado.

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Capital social é do coletivo e pode explicar diferentes níveis de crescimento de regiões e países. As redes que o fazem emergir podem garantir, inclusive, que uma comunidade se desenvolva e as empresas permaneçam vivas a partir de benefícios mútuos trocados a partir dessas conexões. Isso explicaria, por exemplo, porque alguns arranjos sobrevivem à chegada de uma multinacional caracterizada como grande ameaça e outros não – sabe aquela angústia devido à chegada daquela grande rede de academias de ginástica? Pois é, seu fator de sobrevivência pode não estar apenas em você, mas sim na existência ou não dessa rede local. Isso poderia caracterizar, também, porque algumas empresas permanecem inovando após a saída do Agente Local de Inovação – aquele programa do SEBRAE que comentei no início do texto, lembra? – e outras não.

BOM, BELEZA. ENTENDI. E DAÍ?

A introdução – muito breve! – dessa reflexão tem o objetivo fazer você, dono de uma pequena empresa, e nós, ALIs, pensarmos a respeito da consolidação daquelas ações que desenvolvemos no interior de cada organização. Como redes sociais (redes no sentido de estruturas, não de mídias!) podem ser desenvolvidas e fortalecidas é questão central, de modo que o ambiente concreto de aprendizado, cidadania, inovação e educação empreendedora emerja a partir de condições sociais vinculadas ao próprio território local, garantindo a sustentabilidade das micro e pequenas empresas.

Vejo a necessidade de acrescentar que quando eu falo desse ambiente local propício ao desenvolvimento do empreendedorismo, eu não falo apenas daquelas incubadoras que existem na sua cidade e que contribuem para o crescimento daquela start-up super tecnológica que você conhece ou de grupos de empresas altamente criativas. Eu estou falando aqui do arranjo que permite que o Seu Zé da padaria e o Seu Mário da banca de revistas fundada em 1980, além daquela colega que vende brigadeiros na faculdade, também entrem nessas redes de relações locais.

A maneira de alcançar um nível de integração como os grandes arranjos produtivos locais no mundo é questão para outro post, mas você pode iniciar sua própria movimentação buscando, inicialmente, comunicar-se com aquela empresa e/ou associação próximas. Saia da toca, já é um primeiro passo!

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Deixo a referência do texto das autoras citadas inicialmente para que você possa basear sua reflexão de maneira mais completa e dar início ao estudo do conceito de capital social. Vale a pena aprofundar!

Albagli, S.; Maciel, M. L. (2003). Capital social e desenvolvimento local. Em H. M. M. Lastres, J. E. Cassiolato, M. L. Maciel (Orgs.). Pequena empresa: cooperação e desenvolvimento local. (pp. 423-440). Rio de Janeiro: Relume Dumará.

QUEM É A MARIANA?

Psicóloga que resolveu se aventurar no mundo da inovação e empreendedorismo, e acabou entendendo que a Psicologia tem muito mais conexões que muitos imaginam.

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