Empreendedorismo, pessoas e lugares: mais importante do que você pensa

Você já ouviu ou leu algo sobre capital social? Não aquele capital social da esfera do investimento inicial bruto para abertura de uma empresa, mas sim o da esfera sociológica, conceito este que é bem diferente e que gostaria de tratar aqui. Há pouco eu li um texto chamado “Capital social e empreendedorismo local”, das autoras Sarita Abigail e Maria Lúcia Maciel, e é nele que eu me baseio para levantar uma reflexão.

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Ao mesmo tempo, atuar no Programa Agentes Locais de Inovação confere a nós deste blog um poder de atuação in loco nas pequenas empresas, conduzindo a implementação do ciclo de inovação. Espera-se que seja desenvolvida uma ambiência inovadora, a qual caracteriza um ambiente propício à emergência de inovações. E é aí que eu me pergunto: esse ambiente propício é apenas interno e as inovações emergem de uma cultura organizacional singular? O quanto esse ambiente irá perdurar após a saída do ALI?

Vamos então começar a levantar as reflexões.

O CAPITAL HUMANO

As autoras do texto mostram que, até recentemente, predominou na sociedade e no campo das políticas de desenvolvimento do empreendedorismo, uma visão isolada e comportamental sobre o empreendedor. Este seria um indivíduo dotado de racionalidade econômica e individual, marcada por características pessoais que o levam a criar e recriar a empresa num processo contínuo para que o negócio permaneça no mercado. Sob essa ótica, estimular o empreendedorismo significaria desenvolver o indivíduo ou a empresa apenas. Pode-se pensar o conceito de capital humano atrelado a essa visão; aquele capital que pertence à pessoa ou à empresa.

O CAPITAL SOCIAL

Quando falamos de capital social, entretanto, vamos além. O valor do capital humano existiria associado a relações sociais mais amplas. Aqui a inovação não está concentrada nos recursos humanos, econômicos e tecnológicos apenas; ela está vinculada a motivações e influências da estrutura social ao redor, as quais estão ligadas ao grau de empreendedorismo de uma localidade. O indivíduo está imerso em relações e redes que podem ou não ser propícias ao desenvolvimento do empreendedorismo. O conceito capital social não é fechado – alguns acreditam ser um ativo, outros acreditam ser uma metáfora; alguns acreditam que ele pode ser construído com propósitos, outros acreditam que é um subproduto não intencional de outras atividades. Talvez o termo seja, como as autoras mostram, um guarda-chuva dentro do qual cabem diferentes disciplinas. O fato é que a discussão sobre ele traz a importância de um conjunto de redes, normas, confiança e cooperação para que o empreendedorismo sobreviva de modo sustentado.

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Capital social é do coletivo e pode explicar diferentes níveis de crescimento de regiões e países. As redes que o fazem emergir podem garantir, inclusive, que uma comunidade se desenvolva e as empresas permaneçam vivas a partir de benefícios mútuos trocados a partir dessas conexões. Isso explicaria, por exemplo, porque alguns arranjos sobrevivem à chegada de uma multinacional caracterizada como grande ameaça e outros não – sabe aquela angústia devido à chegada daquela grande rede de academias de ginástica? Pois é, seu fator de sobrevivência pode não estar apenas em você, mas sim na existência ou não dessa rede local. Isso poderia caracterizar, também, porque algumas empresas permanecem inovando após a saída do Agente Local de Inovação – aquele programa do SEBRAE que comentei no início do texto, lembra? – e outras não.

BOM, BELEZA. ENTENDI. E DAÍ?

A introdução – muito breve! – dessa reflexão tem o objetivo fazer você, dono de uma pequena empresa, e nós, ALIs, pensarmos a respeito da consolidação daquelas ações que desenvolvemos no interior de cada organização. Como redes sociais (redes no sentido de estruturas, não de mídias!) podem ser desenvolvidas e fortalecidas é questão central, de modo que o ambiente concreto de aprendizado, cidadania, inovação e educação empreendedora emerja a partir de condições sociais vinculadas ao próprio território local, garantindo a sustentabilidade das micro e pequenas empresas.

Vejo a necessidade de acrescentar que quando eu falo desse ambiente local propício ao desenvolvimento do empreendedorismo, eu não falo apenas daquelas incubadoras que existem na sua cidade e que contribuem para o crescimento daquela start-up super tecnológica que você conhece ou de grupos de empresas altamente criativas. Eu estou falando aqui do arranjo que permite que o Seu Zé da padaria e o Seu Mário da banca de revistas fundada em 1980, além daquela colega que vende brigadeiros na faculdade, também entrem nessas redes de relações locais.

A maneira de alcançar um nível de integração como os grandes arranjos produtivos locais no mundo é questão para outro post, mas você pode iniciar sua própria movimentação buscando, inicialmente, comunicar-se com aquela empresa e/ou associação próximas. Saia da toca, já é um primeiro passo!

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Deixo a referência do texto das autoras citadas inicialmente para que você possa basear sua reflexão de maneira mais completa e dar início ao estudo do conceito de capital social. Vale a pena aprofundar!

Albagli, S.; Maciel, M. L. (2003). Capital social e desenvolvimento local. Em H. M. M. Lastres, J. E. Cassiolato, M. L. Maciel (Orgs.). Pequena empresa: cooperação e desenvolvimento local. (pp. 423-440). Rio de Janeiro: Relume Dumará.

QUEM É A MARIANA?

Psicóloga que resolveu se aventurar no mundo da inovação e empreendedorismo, e acabou entendendo que a Psicologia tem muito mais conexões que muitos imaginam.

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A verdade sobre empreendedorismo e porque você não conseguirá fazer isso sozinho

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Resolvi escrever esse post após ver uma palestra do Ernesto Sirolli, chamada “Quer ajudar alguém? Fique quieto e escute!”. Se eu fosse você investiria seu tempo na palestra completa. É só clicar aqui.

Em uma fala brilhante, Sirolli define o que para ele é a verdade sobre empreendedorismo: as grandes empresas, as pequenas empresas, todas elas devem ser capazes de fazer três coisas perfeitamente: vender um produto fantástico, fazer um marketing fantástico, e possuir uma gestão financeira extraordinária.

Ainda segundo Sirolli, falando de uma maneira bem humorada: “Nunca foi encontrado um único ser humano no mundo capaz de fazer as três coisas ao mesmo tempo”.

Deixo registrada minha sugestão desde já, forjada ao longo destes quase dois anos atendendo pequenas empresas pelo Programa ALI, do SEBRAE: leia este texto buscando gerar ideias de melhoria para sua empresa, e transforme elas em ações. E não adianta querer fazer tudo de uma vez só. Uma grande melhoria por vez e sempre em frente!

Então vamos por partes:

1) Como possuir um produto fantástico?

Um produto (ou serviço) existe para solucionar um problema ou necessidade de uma pessoa. Eu vou à padaria porque tenho fome. Na verdade eu não vou mais, peço de casa porque tenho fome e preguiça. E peço via aplicativo, porque tenho fome, preguiça e não gosto de falar ao telefone.

Já lidei com alguns empreendedores que não compreendiam porque os clientes não apareciam, e colocavam a culpa totalmente na crise econômica vivida pelo Brasil. Concordo que a crise tem sua parcela de culpa, mas as pessoas continuam vivendo apesar dela. O hábito das pessoas evolui, o mercado evolui. O Google já falou sobre como o brasileiro mudou seus hábitos de compra: olha aqui.

Me arrisco a dizer que atualmente no futuro os produtos só serão fantásticos para os consumidores se estiverem acompanhados de um serviço fantástico. Deixe-me explicar utilizando o exemplo (fictício) da padaria. O produto da padaria é o pão, eu gosto de pão e o utilizo para matar minha fome. Porém, prefiro comprar na padaria da Maria, pois ela tem um excelente pão e um atendimento de qualidade pois aceita pedidos via Whatsapp. Esse é o diferencial da Padaria da Maria. Nenhuma outra padaria do meu bairro faz isso, e é por isso que eu preferi comprar dela. Perceba que o produto da Maria possui mais VALOR para mim pois ela oferece um serviço de atendimento diferenciado.

O que o seu principal grupo de clientes está fazendo para solucionar seus problemas? Como você pode ajudá-los? Como você pode se diferenciar dos seus concorrentes?

2) Como realizar um marketing fantástico?

“Quem não é visto não é lembrado”. Por outro lado, “o boca a boca é a melhor forma de divulgação”. E agora? Eu concordo com as duas! O boca a boca é sim a melhor forma de divulgação, mas é resultado de um longo trabalho, onde a empresa possui um produto fantástico e clientes que já promovem sua marca. Mas e até lá? O que pode ser feito?

O primeiro passo é entender quem são nossos clientes, de novo! Você entendeu os clientes para desenvolver uma solução para suas necessidades antes, agora você compreende eles para definir a melhor forma de divulgação. Eles usam internet? Estão em qual rede social? Lêem e-mail? Utilizam Whatsapp? Você pode ler aqui sobre uma técnica para entender melhor o comportamento de clientes, chamada Persona.

Após entender os hábitos, é hora de definir a estratégia de abordagem. E-mail, telefone, redes sociais, panfletos, tudo é válido desde que feito com estratégia. Quantas pessoas vou atingir? Quanto vou gastar? Quanto espero de resultado? SIM, NÚMEROS! Alguns profissionais de marketing defendem que atualmente os testes são indispensáveis para descobrir como os clientes de uma empresa respondem às ações de divulgação (veja mais aqui) . Os números, portanto, são fundamentais para saber se houve sucesso ou insucesso nessas tentativas. Se quiser ler mais sobre indicadores de marketing, clique aqui e aqui.

3) Como possuir uma gestão financeira extraordinária?

“Trabalhar duro não é o mesmo que trabalhar de forma inteligente”. Infelizmente a cultura do nosso país atrela resultado a esforço. Se você trabalhar muito você certamente terá o resultado esperado… Só que não! Os números estão aí para ajudar e guiar o empreendedor para a direção de seu objetivo. O grande problema é: a grande maioria das empresas que atendo praticamente não utilizam números para tomar decisões.

Muitas dessas empresas confundem possuir controles com realizar a gestão. Elas possuem softwares, planilhas, números, porém não possuem o hábito de analisar. A gestão é a base a tomada de ação do empreendedor.

E aqui não temos para onde correr. Temos que buscar capacitação, fazer cursos (a Endeavor tem um curso online gratuito), consultorias, buscar pessoas capazes de nos ajudar, e o mais difícil de tudo isso: criar o hábito de analisar. Cada empresa possui uma forma de fazer sua própria gestão, mas a análise deve impreterivelmente fazer parte deste método. E perder tempo preenchendo uma planilha pode te trazer informações sobre seu negócio capazes de modificá-lo completamente. As principais informações que você precisa já estão na sua empresa! Como transformar essas informações em conhecimento e ações de melhoria?

Bônus) Como fazer tudo isso funcionar?

Voltando lá no começo, na fala do Ernesto Sirolli: “Nunca foi encontrado um único ser humano no mundo capaz de fazer as três coisas ao mesmo tempo”. O empreendedor cresce com pessoas capacitadas e engajadas ao seu lado. E pessoas capacitadas também tem necessidades a serem atendidas! Para atrair clientes, atenda suas necessidades… para atrair pessoas capacitadas para fazer sua empresa crescer, atenda as necessidades delas! E não ache que falo apenas de salário quando digo necessidades. É possível ver aqui que as PMEs que mais crescem no Brasil atualmente são as mais bem avaliadas por seus próprios colaboradores.

Aquela frase clichê se encaixa bem aqui: “Trate bem seus colaboradores que eles tratarão bem seus clientes”. Forneça capacitação! Seja transparente! Desenvolva seus objetivos junto de sua equipe. Existem técnicas que auxiliam o desenvolvimento de metas em conjunto, como a OKR. Essa é uma técnica utilizada pelo Google, e uma empresa brasileira relatou aqui sobre como foi o processo de implementá-la. Neste caso a cúpula da empresa definiu 40% dos objetivos do trimestre e deixou cada setor livre para definir sua forma de trabalho e suas respectivas metas.  A empresa tinha 15 colaboradores quando começou a utilizar os OKRs e hoje possui mais de 100! A dica é começar simples e ir melhorando com o tempo. 

Para fechar, e aproveitando o gancho do “simples”, ressalto novamente: defina o foco inicial de melhoria e trabalhe apenas nele. Não tente solucionar todos os problemas de uma vez só! E não deixe de buscar alternativas, afinal, inovação é uma melhoria contínua.

E aí, o que você achou? Nos conte suas experiências aqui nos comentários! O que deu certo, o que deu errado? O que você achou do texto? Obrigado e um abraço!

Quem é o Lucas?

Um ALI belo-horizontino que está sempre com sua caneta no bolso da camisa, estudando sobre empreendedorismo e marketing digital, atualizando seu Trello ou jogando um futebol honesto.

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